«… com todo o gosto lá botarei, se o meu estado de saúde (…) mo permitir.»
Foi assim com estas simples palavras que Fernando Lopes Graça iniciou a sua ligação ao Coro Canto Firme. Estávamos em Maio de 1980.
O convite era para ouvir obras de sua autoria no Convento de Cristo, mas a curiosidade haveria de o levar a um improvisado palco na festa de Carril-Vales onde assistiu ao ensaio e ao concerto. Mas mais do que isso, deu-nos a honra (rara) de se levantar da sua cadeira, onde assistia ao ensaio e subir ao palco para nos presentear com uma «pequena» lição de interpretação das suas obras.
E o coro, bebé de 8 meses, foi atrás do gesto do mestre, firmando-se neste apoio e que importante que ele seria.
No rescaldo deste encontro de coros confidenciaria ao jornal «A Forja»: «… um coro leva anos a fazer. Do rapaz que está à sua frente tinha boas referências e elas confirmam-se».
Mais do que qualquer subsídio, mais do que quaisquer outras palavras e muitas houve felizmente e muito importantes, estas calaram fundo em cada um de nós e foram indubitavelmente cimento da melhor qualidade para alicerçar um coro em terra avessa ao crescimento de grupos corais.
Seis meses depois estaria connosco novamente num convívio com o Coro de Amadores de Música, no Castelo do Bode. O coro criado por si e do qual ainda era o maestro titular.
Lopes Graça voltou várias vezes a Tomar onde pode conviver com velhos amigos: Fernando (Nini) Ferreira, Cartaxo da Fonseca e Jerónimo carpinteiro e criar novas amizades.
Em 1984, no Convento de Cristo, assistiu à 1ª audição mundial da sua obra policoral «Avisamento» sobre texto de Camões (a carta de Ceuta).
A ligação ao coro ia-se fortalecendo com o passar dos anos de tal modo que em 1990 ele, num texto incluído no livro «Canto Firme – 10 anos», escrevia: «… não faço nenhum cumprimento descabido afirmando que o Canto Firme se me antolha um dos agrupamentos mais válidos entre as associações congéneres do país.
Trabalhar para dignificar a obra do mestre é uma tarefa que nos enche de alegria e procuramos em todos os ensaios merecer estas palavras. O carinho que nos merece a sua obra e o seu valor que descobrimos em cada partitura justifica cada minuto fora das cadeiras do café ou do sofá lá de casa.
Por isso, em cada concerto, temos tido o cuidado de lembrá-lo, divulgando a sua obra quer sejam cantigas regionais harmonizadas, quer canções heróicas censuradas pelo fascismo quer outras obras sobre poetas portugueses a quem ele continua a dar voz.
Sabemos das nossas limitações interpretativas, mas não abdicamos de dar todo o nosso melhor para dar a conhecer o melhor que neste país se fez em termos de música coral.
Lopes Graça dedicou algumas obras ao coro. Da primeira vez, em 1980, aquando do convívio com o coro dos Amadores de Música ofereceu o exemplar nº.1 (da edição revista) de um tríptico coral formado pelas peças: «Rústica», «Epitáfio» e «Ode».
Mais tarde, e depois de ter escutado o coro a interpretar a «Cantiga às Serranas» sobre poema de Francisco Rodrigues Lobo e de que havia gostado mais do que da versão apresentada pelo coro ao qual a havia dedicado, haveria de nos conceder a honra de nos dedicar um díptico sobre dois poemas de Fernando Araújo Ferreira: «A minha terra» e «Festa dos Tabuleiros».
Esta última está incluída no disco «Canto Firme canta Lopes Graça e a Festa dos Tabuleiros» de 1991.
A saúde do maestro ia-se deteriorando com o passar dos anos. Não raras eram as vezes que a mesma o traía impossibilitando-o de estar presente. Mas sempre que ele lhe permitia a viagem lá vinha ele. Ouvia-nos, convivia connosco, à volta de um uisquinho e de meios cigarros, deliciando-nos com o seu saber e se achava pertinente deixava escapar para a imprensa qualquer coisa sobre nós. Frases como «…Canto Firme é uma realidade exemplar e que sobremaneira honra a vida cultural da cidade onde tem as suas raízes...» serviram-nos sempre de combustível emocional com que percorremos a pouco cuidada estrada da cultura tomarense.
Em 1994 lá estivemos no adeus ao corpo do maestro e amigo num cemitério anónimo tão distante do sítio onde o gostaríamos de perpetuar – Tomar. Mas se o seu corpo ficou longe, o seu espírito ficou no seio deste coro e através de nós ele estará sempre na sua terra natal cantado e lembrado por aqueles que lhe mereceram amizade e valor artístico.

Cronologia dos acontecimentos mais marcantes

[1980] Maio. Carta do maestro António de Sousa a convidá-lo para o I Encontro de [1980] Coros de Tomar e resposta afirmativa de Lopes Graça;
[1980] Novembro. Convívio Canto Firme – Amadores de Música, no Castelo do Bode;
[1981] Comemoração dos 75 anos de Lopes Graça;
[1981] Concerto em Santa Maria do Olival;
[1984] 1 de Julho. Avisamento no Convento de Cristo;
[1985] Concerto no Palácio Nacional de Queluz;
[1986] Homenagem a Lopes Graça no seu 80.º Aniversário;
[1989] Lopes Graça ouve e elogia a «Cantiga às Serranas»;
[1990] Entrevista de Lopes Graça ao jornal «A Forja»;
[1991] Postal escrito por Lopes Graça lamentando a impossibilidade de se deslocar a [1991] Tomar;
[1991] Exposição sobre Lopes Graça Lopes Graça compõe o díptico «Tomar» e
[1991] oferece-o ao Canto Firme Coro adulto e infantil gravam disco com música [1991] exclusivamente de Lopes Graça;
[1991] Ciclo «Cantar Natal» todo dedicado a Lopes Graça merecendo destaque na [1991] televisão;
[1994] Exposição Lopes Graça na Biblioteca Municipal Morte do compositor e maestro;
[1995] 17 de Dezembro. «Evocar Lopes Graça» concerto pelos coros todos do
[1995] concelho de Tomar.